Há
quarenta anos, em 1961, o regime Salazarista começava a tremer.
A oposição tornava-se mais audaz, a agitação
instalava-se no seio das Forças Armadas, a guerrilha eclodia
nas colónias africanas. O ano que começara com o massacre
de plantadores de algodão, em greve na zona de Malange (Angola),
viria a revelar-se como uma cadeia de acontecimentos nefastos para a
tranquilidade da Ditadura, há 35 anos implantada em Portugal.
Em Janeiro
de 1961, o capitão Henrique Galvão, à frente de
um grupo de exilados políticos, desviava o paquete "Santa
Maria". Em Fevereiro, estalava a insurreição angolana.
Em Abril, o general Botelho Moniz, ministro da Defesa Nacional, via
gorar-se a sua tentativa de golpe de estado palaciano. Em Agosto, o
PAIGC proclamava a passagem à insurreição, na Guiné.
No fim do ano, a Índia tomava o chamado Estado da Índia
portuguesa. A Oposição estava particularmente activa:
uma grupo afim do que desviara o "Santa Maria" desvia um avião
da TAP. Dirigentes comunistas fogem da cadeia de Caxias, a Oposição
Democrática desiste das "eleições" à
boca das urnas. Em Dezembro, a PIDE assassina, numa rua de Lisboa, o
pintor e escultor comunista José Dias Coelho. No mesmo mês,
o general Humberto Delgado entra, clandestinamente, em Portugal; no
dia seguinte, frustra-se o assalto ao quartel de Beja.
O ano de 1961 foi, de tal modo fértil em acontecimentos, que
bastaria debruçar-nos sobre um só deles para que ficasse
elaborado um trabalho, pleno de interesse e significado. Como pretendemos
focar uma imagem global daquilo que se passou, no aspecto político,
há quarenta anos atrás, optámos por honrar os eventos
sob a forma de cronologia, necessariamente sucinta.
Janeiro
Dia
15 - A Igreja Católica divulga uma nota, através da Imprensa,
onde apoia o regime colonial-fascista.
Dia 21 - Inicia-se em Curaçao, a "Operação
Dulcineia", que se traduz no assalto ao "Santa Maria",
rebaptizado pelos ocupantes de "Santa Liberdade". Comanda
a operação Henrique Galvão, dissidente do regime,
à frente de militantes do DRIL (Directório Revolucionário
Ibérico de Libertação), treze portugueses, onze
espanhóis e dois venezuelanos. Na acção, regista-se
a morte de um oficial do navio e de dois feridos. Nos planos de Galvão
figuraram ataques a Fernando Pó, possessão espanhola,
e a Luanda, com o apoio de rebeldes locais.
Dia 25 - Um avião norte-americano sobrevoa o "Santa
Maria", indicando, pela primeira vez, a sua verdadeira posição.
Dia 27 - O dirigente angolano Mário Pinto de Andrade declara
que a luta de libertação das Colónias é
independente dos planos de Delgado e Galvão para derrotar a Ditadura.
Dia 28 - É entregue ao Presidente da República,
Almirante Américo Tomaz, um documento subscrito por elementos
te Américo Tomaz, um documento subscrito por elementos da Oposição;
representada por Azevedo Gomes, Eduardo Figueiredo e Acácio Gouveia,
que solicitam uma audiência.
Dia 31 - É divulgado o documento "Programa para a
Democratização da República", cujo primeiro
signatário é Mário de Azevedo Gomes.
Henrique Galvão conferencia com o almirante Allen Smith, da Armada
americana, a bordo do "Santa Maria".
Suspensão do jornal "República".
Agitação estudantil contra o não reconhecimento,
pelo Governo, da direcção da Casa dos Estudantes do Império,
eleita democraticamente.
Revolta na Baixa do Cassange (Angola).
Fevereiro
Dia
2 - O "Santa Maria" entra no porto de Recife (Brasil). Humberto
Delgado e Henrique Galvão conferenciam, a bordo.
Dia 4 - O "Santa Maria" é entregue ao adido
naval português. É imediatamente ocupado por elementos
da Legião Portuguesa, de propósito deslocados para o Brasil.
O governo brasileiro concede asilo político aos participantes
da "Operação Dulcineia".
Começo da insurreição Angolana: O MPLA tenta o
assalto à Casa de Reclusão Militar, ao Quartel da Companhia
Móvel da PSP e à Emissora Oficial de Luanda.
Dia 16 - O "Santa Maria" chega a Lisboa.
Dia 27 - "Pacificação" da Baixa do Cassange.
Março
Dia
11 - Tentativa insurreccional, conhecida por Revolta da Sé. Participam
diversos elementos da Oposição, civis e militares, como
o capitão Varela Gomes, capitão Vilhena, Manuel Serra,
Emídio Santana.
Dia 15 - Começo da insurreição no Norte
de Angola, sob a égide da UPA (União dos Povos de Angola).
Dia 21 - A fim de não repetir o "susto" Delgado,
o Chefe de Estado passa a ser eleito por um Colégio Eleitoral.
Dia 23 - Portugal abandona a sala de sessões da Assembleia
Geral da ONU, no início da discussão da situação
em Angola.
Dia 24 - Os estudantes de Lisboa festejam o Dia de Estudante,
apesar da vigilância policial. Esta será a última
vez que a comemoração não é proibida.
Dia 31 - É preso, em Luanda, o reverendo Mendes das Neves,
vigário-geral da Diocese, por apoiar a revolta.
Álvaro Cunhal é eleito secretário-geral do PCP.
Galvão divulga, no Rio de Janeiro, um comunicado intitulado "Salazar
demagogo".
Prisão e deportação para Portugal de nove padres
angolanos.
Abril
Dia
4 - Aumento considerável do contingente da PIDE.
Dia 9 - Henrique Galvão é entrevistado pelo "Estado
de S. Paulo", onde pertencem os jornalistas portugueses Miguel
Urbano Rodrigues e Vítor da Cunha Rego, participantes na "Operação
Dulcineia".
Dia 11 - O general Botelho Moniz, ministro da Defesa Nacional
e figura destacada no pronunciamento do 28 de Maio, afirma "ser
de interesse nacional a demissão de Salazar".
Dia 12 - O Presidente da República reitera toda a confiança
a Salazar, recusando-se a receber Botelho Moniz, que lhe solicitara
audiência.
Dia 13 - Remodelação governamental, com demissão
de Botelho Moniz. Oliveira Salazar assume a pasta da Defesa. Kaulza
de Arriaga; subsecretário de Estado da Aeronáutica, assume-se
como o desmantelador da tentativa golpista de Botelho Moniz.
Dia 18 - Partem para Angola tropas pára-quedistas aerotransportadas.
É criada a conferência das Organizações Nacionais
das Colónias Portuguesas (CONCP), em Casablanca.
Dia 21 - Partem paquetes com tropas para Angola.
Dia 30 - Greves de pescadores, em Peniche e Matosinhos.
Maio
Dia
4 - Nova remodelação ministerial.
Nas eleições associativas, os estudantes de Coimbra boicotam
as listas da Mocidade Portuguesa. A lista associativa ganha as eleições.
O "Avante!" apela à deserção. Manifestações
e protestos de soldados e populares contra a partida de tropas para
Angola.
É criado o Movimento Nacional Feminino, de apoio ao Regime.
Junho
Dia
15 - Primeiro grande embarque de tropas para Angola.
Dia 22 - Nova remodelação ministerial.
Paralisações e protestos contra a jornada de trabalho
gratuito em favor da guerra de Angola. Boicote a espectáculos,
a favor da guerra.
Julho
Dia
27 - O Daomé (actual Benin) ocupa a feitoria portuguesa S. João
Baptista de Ajudá, na costa da África Ocidental.
Agosto
Dia
9 - As tropas colonialistas reconquistam Nambuangongo (Angola).
Setembro
Dia
6 - É abolido o Estatuto do Indígena, em Angola, Moçambique
e Guiné.
Dia 20 - As tropas portuguesas reconquistam a Pedra Verde (Angola).
Outubro
Dia
5 - Manifestações em Lisboa e Alpiarça, que originam
diversas detenções.
Dia 13 - Carta Aberta de Amílcar Cabral, líder
do PAIGC, ao governo Português, reclamando a independência
da Guiné e Cabo Verde.
Dia 26 - Os elementos das Forças Armadas ficam proibidos
de participar em actos políticos, excepto eleitorais.
Dia 27 - Henrique Galvão concede uma entrevista, em Estocolmo.
Manifestações anti-governamentais, exigindo o fim da guerra
em Angola e a demissão de Oliveira Salazar.
Constitui-se, na Venezuela, o Movimento Democrático de Libertação
de Portugal e suas Colónias.
Novembro
Dia
7 - Os candidatos da Oposição, presentes em oito círculos
do Continente e Funchal, anunciam a desistência no acto eleitoral,
marcado para dia 12.
Dia 10 - "Operação Vagô", concebida
por Henrique Galvão. Tomada de um avião da TAP da linha
Casablanca-Lisboa, que sobrevoa Lisboa, Barreiro, Beja e Faro, lançando
panfletos contendo o manifesto da Frente Antitotalitária dos
Portugueses, Livres no Estrangeiro. Palma Inácio faz parte do
comando.
Dia 11 - Manifestações contra a burla eleitoral
em Grândola, Couço, Covilhã, Ermidas, Alpiarça,
Almada. Em Almada, as forças policiais as assassinam o militante
comunista Cândido Martins Capilé.
Dia 12 - Eleição de deputados à Assembleia
Nacional. São eleitos todos os candidatos da União Nacional.
Dia 13 - A política colonial portuguesa é condenada
pela Comissão de Tutela da ONU, por 90 votos contra três.
Dia 14 - Manifestações, em Lisboa, contra a burla
eleitoral.
Dia 28 - Reorganização da Legião Portuguesa.
Mário de Figueiredo é eleito Presidente da Assembleia
Nacional, Supico Pinto preside à Câmara Corporativa.
Dia 29 - Abertura solene da VIII Legislatura.
Greve de estudantes da Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis.
Dezembro
Dia
4 - Os militantes comunistas Francisco Miguel, José Magro, Costa
Carvalho, António Gervásio, Domingos Abrantes, Ilídio
Esteves, Rolando Verdial e António Tereso evadem-se da prisão
de Caxias no carro blindado, que estivera ao serviço de Salazar.
Dia 9 - São presos militantes comunistas, entre os quais
Octávio Pato, Pires Jorge e Carlos Costa.
Dia 18 - A Índia ocupa Goa, Damão e Diu, praticamente
sem encontrar resistência. Os portugueses renderam-se, contra
as ordens de Salazar, e devido à inferioridade numérica
dos efectivos.
Dia 19 - Uma brigada da PIDE assassina o escultor e pintor comunista
José Dias Coelho, na Rua dos Lusíadas, em Alcântara
(Lisboa). A morte daquele funcionário clandestino do PCP serviu
de tema à canção de José Afonso "A
Morte Saiu à Rua".
Dia 30 - Humberto Delgado entra, clandestinamente, em Portugal,
para dirigir o assalto ao quartel de Beja.
Dia 31 - Fracasso do assalto ao quartel de Beja. É morto
o subsecretário de Estado do Exército. Um dos assaltantes,
o capitão Varela Gomes, é ferido durante a acção.
Tentativa de formação de uma Frente Republicana.
Outros
acontecimentos
Maria Lamas
dirige a delegação portuguesa à Conferência
para o Desarmamento e pela Paz. No regresso, avisada de que seria presa,
exila-se em Paris.
É criada a Junta Patriótica Central (oposição).
Surge, no Malawi, a União Africana para Moçambique Independente.
O Bispo de Luanda apoia a luta angolana e bate-se pela libertação
de Joaquim Pinto de Andrade, preso pela PIDE.
Fernando
J. Almeida
in "Notícias da Amadora"
Fevereiro 2001