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O MESTRE
DA VOZ ROUCA Por esta história, contada pelo próprio em timbre cavo e arrebatador numa roda de rapazes ávidos de sabedoria, poderia começar um serão com Manuel Cabanas, o Mestre da voz rouca nascido no princípio do século XX em Cacela, no Algarve, e falecido quase cem anos depois em Vila Real de Santo António. O rol de temas não tinha, para o incansável narrador ou para nós, os seus hipnotizados ouvintes, limite ou moderação - e abarcava o escopo de uma vida inteira dedicada à política, às letras, às artes, aos amigos, a Portugal, ao mundo das ideias e das paixões. A lista dos grandes homens com quem privara dava para encher um livro, do Presidente da República Manuel Teixeira Gomes ao poeta-engraxador António Aleixo, passando pela generalidade dos vultos portugueses que ao longo de um século fizeram história política, escreveram livros, revolucionaram a pintura, ergueram cidades ou de alguma forma marcaram a vida dos seus contemporâneos. Nós ficávamos extasiados, horas a fio, esquecidos de nós mesmos, a ouvir Mestre Cabanas na sua deambulação pelos escaninhos da memória. Uns, poucos, terão ouvido por curiosidade, por graça, por acaso. Outros, muitos, gravámos na memória lições extraordinárias de inteireza e de cultura. E essas lições, ministradas à mesa do serão, em cafés e tertúlias irrepetíveis, foram inspiração para vidas dedicadas aos mesmos ideais do seu inspirador, Mestre Manuel Cabanas, o velho sem idade, o arauto de um mundo onde a Ética sempre ganhou em competição com a conveniência cómoda ou a indiferença. Assim me
lembro dele, eu que também aprendi a aprender com o Artista da
voz rouca a sua lição de dignidade sem prazo de validade,
o seu exemplo de homem para quem a cidadania só se escreve no superlativo.
Um rapazinho perante o seu amoroso Mestre. |