Traços Biográficos
Centenário

O MESTRE DA VOZ ROUCA

Fora em tempos um orador temido, um tribuno que punha em sentido os adversários, em alerta os inimigos. Mas um traiçoeiro pólipo nas cordas vocais, ganho quando discursava, uma noite memorável, em Beja, num comício do general Humberto Delgado, em 1958, deixara-o quase afónico para o resto da vida.

Por esta história, contada pelo próprio em timbre cavo e arrebatador numa roda de rapazes ávidos de sabedoria, poderia começar um serão com Manuel Cabanas, o Mestre da voz rouca nascido no princípio do século XX em Cacela, no Algarve, e falecido quase cem anos depois em Vila Real de Santo António.

O rol de temas não tinha, para o incansável narrador ou para nós, os seus hipnotizados ouvintes, limite ou moderação - e abarcava o escopo de uma vida inteira dedicada à política, às letras, às artes, aos amigos, a Portugal, ao mundo das ideias e das paixões. A lista dos grandes homens com quem privara dava para encher um livro, do Presidente da República Manuel Teixeira Gomes ao poeta-engraxador António Aleixo, passando pela generalidade dos vultos portugueses que ao longo de um século fizeram história política, escreveram livros, revolucionaram a pintura, ergueram cidades ou de alguma forma marcaram a vida dos seus contemporâneos.

Nós ficávamos extasiados, horas a fio, esquecidos de nós mesmos, a ouvir Mestre Cabanas na sua deambulação pelos escaninhos da memória. Uns, poucos, terão ouvido por curiosidade, por graça, por acaso. Outros, muitos, gravámos na memória lições extraordinárias de inteireza e de cultura. E essas lições, ministradas à mesa do serão, em cafés e tertúlias irrepetíveis, foram inspiração para vidas dedicadas aos mesmos ideais do seu inspirador, Mestre Manuel Cabanas, o velho sem idade, o arauto de um mundo onde a Ética sempre ganhou em competição com a conveniência cómoda ou a indiferença.

Assim me lembro dele, eu que também aprendi a aprender com o Artista da voz rouca a sua lição de dignidade sem prazo de validade, o seu exemplo de homem para quem a cidadania só se escreve no superlativo. Um rapazinho perante o seu amoroso Mestre.


Texto de Jorge Morais

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