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Mestre de Fotógrafos e Narrador de Amigos
Talvez se possa definir o Augusto Cabrita (no que existe nele de definível) como um ser humano onde se combinam, com uma
felicidade extremamente rara, a truculência, a generosidade e a arte do trabalho. Absorve a vida como se lhe fosse pouca - e depois distribui-a, caminheiro, pelas mãos dos outros...


Dinis Machado

Os Dizeres do Olhar
...Nas fotos de Augusto Cabrita, como nos filmes de Augusto Cabrita, não há espaços neutros, vazios, inertes. Está lá, sempre e sempre, essa maneira de olhar e de dizer as coisas que recusa o banimento da criatura humana, mesmo quando a criatura humana (aparentemente) não figura na foto ou no filme...

Baptista-Bastos

O Homem que Viveu para Além dos Sonhos

...Através da visão do Augusto Cabrita, nós começamos a compreender que, afinal, a maioria dos artistas não vai para além, mas, muito pelo contrário, fica bastante aquém da realidade - e por isso eu não hesito em considerar esse espantoso fotógrafo, que tive a dita de contar entre os meus melhores amigos, um revelador das verdades esquecidas, ignoradas e nem mesmo sonhadas.

A sua verdade transporta-nos para além dos sonhos.

António Vitorino d'Almeida

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Depoimentos
 

     O HOMEM QUE VIVEU PARA ALÉM DOS SONHOS


    Penso que muitos são os artistas capazes de nos transmitir mensagens estéticas que ultrapassam os limites da realidade, e não creio assim que essa propriedade constitua um exclusivo da chamada arte surrealista.

    Deste modo, considero ainda que o elogio feito a determinados actores, apresentados como muito naturais, constitui um erro crasso, pois toda a representação representa automaticamente um artifício: natural é o dia-a-dia, e nunca o que se faz subir aos palcos ou projecta nos écrans, cinematográficos ou televisivos.

    Pascal lamentava a pobreza daquela arte pictórica que só seria susceptível de ser apreciada por se parecer com objectos cujo original seria incapaz de despertar o nosso entusiasmo (por exemplo: um alguidar, um par de ceroulas, ou quaisquer outras coisas de um quotidiano destituído de motivos de especial interesse...)

    E nessa sua observação, o genial filósofo francês antecipava-se a conceitos que a própria pintura só muito mais tarde viria a transformar em teoria, conquanto sempre se verificassem na prática dos grandes mestres, cujas telas e desenhos ultrapassariam por sistema a mera reprodução do mundo real.

    Também na música, aliás, a imitação do real - dias de tempestade, vagas do oceano ou passarinhos chilreantes... - viria empobrecer, para não dizer ridicularizar, um certo repertório dito de programa, por pretender actuar como elemento descritivo da realidade...

    Esse é ainda o problema das chamadas bandas sonoras e musicais que se esforçam por acompanhar a par e passo, fotograma a fotograma, as imagens que se desenrolam na película.

    E por último, será essa a definitiva debilidade das manifestações artísticas - visuais, sonoras, gestuais ou literárias - que pretende ser em todos os aspectos semelhantes aos objectos que lhes sirvam de temática, focando necessariamente o Casal Ventoso, para descrever sordidez e degradação humana, ou mostrando coisas horrendas para descrever determinadas abjecções, tal como o fazem, para mais impressionarem os leitores, alguns periódicos de escândalos, crimes e demais ignomínias nas suas primeiras páginas.

    Isto nos levaria talvez a considerar que a verdadeira arte é sempre surreal.

    Contudo, a teoria platónica dos arquétipos pode conduzir-nos para outro tipo de raciocínios, se admitirmos que as imagens aparentemente reais que temos como autênticas não passam afinal de sombras projectadas na parede de uma gruta - e estão, como tal, muito longe de reproduzir a verdade das coisas...

    Analisando o assunto por esse prisma, o homem comum teria uma percepção muito reduzida e primitiva do real, pois estaria de costas para o mundo concreto, olhando apenas de frente as imagens sombrias que se agitassem na parede da tal gruta...
    E aqui, começaríamos também a admitir que o grande artista era aquele que abria os nossos sentidos à percepção da realidade, e nos mostrava em lampejos de génio toda a beleza do mundo a que habitualmente virávamos as costas.

    Ora, é a essa conclusão que nos pode fazer chegar o realismo de Augusto Cabrita, quando as suas fotografias nos confrontam com um mundo de maravilhas que afinal existe - e que ele nos descreve com aquele rigor que, por definição, caracteriza as imagens fotográficas sem retoques nem trucagens - mas, que habitualmente nos passa despercebida, ao lado da consciência estética.

    São as imagens de um Barreiro e de um Tejo que nada têm de surreal, pois as fotografias provam-nos que eles ali estão, reais e concretos, iguais à imagem obtida pelo mestre privilegiado que assim nos desvenda a verdadeira face do mundo e da vida.

    Através da visão do Augusto Cabrita, nós começamos a compreender que, afinal, a maioria dos artistas não vai para além, mas, muito pelo contrário, fica bastante aquém da realidade - e por isso eu não hesito em considerar esse espantoso fotógrafo, que tive a dita de contar entre os meus melhores amigos, um revelador das verdades esquecidas, ignoradas e nem mesmo sonhadas.

    A sua verdade transporta-nos para além dos sonhos.

    António Vitorino d'Almeida
    Junho de 1995





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