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Mestre de Fotógrafos e Narrador de Amigos Talvez se possa definir o Augusto Cabrita (no que existe nele de definível) como um ser humano onde se combinam, com uma
felicidade extremamente rara, a truculência, a generosidade e a arte do trabalho. Absorve a vida como se lhe fosse pouca - e depois distribui-a, caminheiro, pelas mãos dos outros...
Dinis Machado
 
Os Dizeres do Olhar
...Nas fotos de Augusto Cabrita, como nos filmes de Augusto Cabrita, não há espaços neutros, vazios, inertes. Está lá, sempre e sempre, essa maneira de olhar e de dizer as coisas que recusa o banimento da criatura humana, mesmo quando a criatura humana (aparentemente) não figura na foto ou no filme...
Baptista-Bastos
O Homem que Viveu para Além dos Sonhos
...Através da visão do Augusto Cabrita, nós começamos a compreender que, afinal, a maioria dos artistas não vai para além, mas, muito pelo contrário, fica bastante aquém da realidade - e por isso eu não hesito em considerar esse espantoso fotógrafo, que tive a dita de contar entre os meus melhores amigos, um revelador das verdades esquecidas, ignoradas e nem mesmo sonhadas.
A sua verdade transporta-nos para além dos sonhos.
António Vitorino d'Almeida

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Depoimentos
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A nora encantada
Era «Melomania». Falara João de Freitas Branco e eu olhava as imagens de Cabrita para a música de Filipe de Sousa. Era movimentos vertiginosos de uma câmara que galopava ao longo de fios, que saltava em busca de qualquer coisa que parecia escapar-lhe. Eu olhava; e ia pensando que talvez o Augusto Cabrita precisasse de tomar cuidado. Porque isto de fazer regularmente curtos filmes destinados a serem, na TV, a ilustração de trechos musicais importantes, para lá da responsabilidade da tarefa, bem pode conduzir um homem a uma inevitável repetição, às mil e uma armadilhas que o hábito cria, ao esgotamento. Isto pensava eu, olhando o televisor, enquanto uma inquietação teimosa me mordiscava o estômago.
Mas voltou Freitas Branco, falou de Bach, do sexto Concerto Brandeburguês, de outro trabalho de Cabrita. E, logo à chegada dos primeiros compassos e das primeiras imagens, julguei entender que Augusto Cabrita ganhara.
Que, num dia qualquer, olhando as alcatruzes de uma nora a libertarem a água gelada que iam arrancar ao fundo de um poço, Cabrita descobrira que aquilo também era Bach. E que, agora, tinha já a partida meio resolvida por essa descoberta que só pode parecer simples a quem não saiba que, para a fazer, é preciso ter a correr nas veias, como Augusto Cabrita, o fundo entendimento simultâneo da música e das coisas próximas dos homens. A quem não saiba que o movimento de uma nora só é Bach para quem, como Augusto Cabrita, é habitado pela clarividência especial que ilumina os olhos dos poetas. Ainda, porém, o filme que Augusto Cabrita fizera ia nas primeiras sequências. Porque cedo aquela nora, seguidora e parceira da música de Bach, entrou a transformar-se diante dos nossos olhos. A desdobrar-se na ilustração alegórica do contraponto. A distorcer-se e a
metamorfosear-se na aventura fantástica da fuga. Nunca, que me lembre, Cabrita fora tão longe em audácia e, não obstante, ficara tão perto em fidelidade. Já a nora não era apenas uma nora portuguesa, provavelmente dos campos ali perto do Barreiro: continuava a ser a música de Bach em imagens, a progredir lenta e seguramente, a resolver-se em harmonias. E diante de tudo aquilo, comecei a sentir subir dentro de mim a vontade de dizer que havia ali mais que muito talento, a tentação de palavras perigosas. Comecei a achar que perdia o bom-senso. Ou talvez não.
Felizmente que acabaram, o filme e o andamento de Bach: voltei à terra, às exigências prudentes, às objecções. Mas continuei por muito tempo cheio de um espanto que me custou a dominar. Foi isto já na sexta-feira: passaram entretanto horas, dias. E ainda hoje, tentando ouvir Bach num disco que pus a rodar, voltei a ser visitado pela imagem das engrenagens da nora a derramarem sobre mim as notas do Concerto Brandeburguês, a entrelaçarem-se em sons, a serem a um tempo magicamente didácticas e sublimes. A tornarem-se o que, inutilmente, quis ser uma velha rubrica que a RTP teve: música para olhar.
Perguntei-me, então, quantos telespectadores terão podido ver as metamorfoses da nora encantada de Augusto Cabrita. E também, naturalmente, se a RTP terá consciência de que o tesouro que lhe foi parar às mãos (e que talvez já esteja, a estas horas, numa prateleira de arquivo) não é apenas para guardar com cuidado. Que é, sobretudo, para transmitir de novo. Para que possam ser mais os que podem olhar Bach.
Correia da Fonseca
in «o diário»
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