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Mestre de Fotógrafos e Narrador de Amigos
Talvez se possa definir o Augusto Cabrita (no que existe nele de definível) como um ser humano onde se combinam, com uma
felicidade extremamente rara, a truculência, a generosidade e a arte do trabalho. Absorve a vida como se lhe fosse pouca - e depois distribui-a, caminheiro, pelas mãos dos outros...


Dinis Machado

Os Dizeres do Olhar
...Nas fotos de Augusto Cabrita, como nos filmes de Augusto Cabrita, não há espaços neutros, vazios, inertes. Está lá, sempre e sempre, essa maneira de olhar e de dizer as coisas que recusa o banimento da criatura humana, mesmo quando a criatura humana (aparentemente) não figura na foto ou no filme...

Baptista-Bastos

O Homem que Viveu para Além dos Sonhos

...Através da visão do Augusto Cabrita, nós começamos a compreender que, afinal, a maioria dos artistas não vai para além, mas, muito pelo contrário, fica bastante aquém da realidade - e por isso eu não hesito em considerar esse espantoso fotógrafo, que tive a dita de contar entre os meus melhores amigos, um revelador das verdades esquecidas, ignoradas e nem mesmo sonhadas.

A sua verdade transporta-nos para além dos sonhos.

António Vitorino d'Almeida

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Depoimentos
 

     MESTRE AUGUSTO CABRITA

    De vez em quando pedem-me para falar de Augusto Cabrita. É claro que não enjeito o serviço, mas depois fico por aqui, aflito, até à última hora do último dia do prazo, a tentar ser digno da sua memória, na esperança sempre frustrada de superar a minha pequenez para poder atingir a sua grandeza.
    Hoje, também não é excepção. Olho à volta as mil recordações dele que perduram nesta casa, e a dor violenta de o ter perdido volta com a intensidade de sempre ao meu coração. Se não fosse a esperança de saber merecer a honra da sua amizade desistia agora mesmo.
    Assim, sem recurso e sem talento, sem ofício de escrita que justifique a pretensão para falar de um génio, neste caso do homem que foi conhecido e reconhecido como o maior fotógrafo português, do artista que deslumbrou todos como cineasta, do senhor culto que escreveu admiráveis lições de ternura pelo mundo, resta-me apenas deixar aqui expresso o testemunho da primeira lição e recordação fantástica do dia em que o conheci.
    Era um dia de Verão, no Alentejo. Calor insuportável. Inauguração típica do regime. Eu, jovem repórter à procura de postura no meio de uma multidão de gente. Num "ponto" sempre diferente de todos os outros, um cameraman empunhava uma Paillard Bollex 16 mm com uma emoção como nunca tinha visto. Contas feitas às minhas referências de novato, cedo concluí que estava perto do homem cuja obra admirava profundamente: O Augusto Cabrita.
    Almoçámos juntos, e estabelecemos de imediato uma amizade que não teve fim. Ficámos a conversar o resto do dia e ao fim da tarde, na despedida, perguntei-lhe: Mestre, qual é o segredo? O Augusto deu­-me a primeira lição: Primeiro, é preciso saber olhar, depois é preciso uma tensão sobre o acontecimento. A fotografia acontece quando a vida fica suspensa e eterna.
    Depois de este mágico dia da minha vida passaram-se muitos anos. O Augusto ficou para sempre a maior referência da minha profissão e o meu melhor amigo.
    Ensinou-me a olhar, mas não me ensinou a viver com a saudade e a tristeza que o seu desaparecimento deixou na minha vida.

    António Homem Cardoso


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